January 4, 2007

Perdido, porém em casa. A sensibilidade de Lost In Translation.


Cá estava eu, fronte ao meu computador ouvindo musicas armazenadas no mesmo. À medida que ouvia as diversas bandas e canções das quais tanto gosto paro e ouço, pela milésima vez, a Trilha Sonora de Encontros e Desencontros (Lost In Translation). Que saudade! Saudade daqueles personagens que nunca conheci. Saudade daquela cidade onde nunca estive. Saudade daquele momento tão especial que não presenciei em vida real. Mas o que importa, se o cinema tem a magia de aflorar em nós aquilo que não nos pertence, mesmo que por uma ou duas horas, mas que sempre ficará permanente em nossos pensamentos?! Não sei se é bom ou ruim, mas que a sensação é de que sentimos falta de algo que nunca tivemos, ah, isso é. Saber ver filme é adentrar em seu mundo, sentir empatia pelos personagens e enxergar o que não é obvio, mas que está lá.

Diversas foram as pessoas que disseram a mim que o filme "não tem nada". Que este não passava de um filme sobre duas pessoas estranhas que se encontram e nada têm pra fazer. Poxa, que pena! Posso ser doido ou enxergar o que não existe, mas tenho certeza de que não sou o único. Sinceramente, acho o filme riquíssimo e um dos motivos é o fato do mesmo tratar de uma das coisas que mais dou valor na vida: amizade, pura e simples.

Às vezes, penso que o destino existe mesmo. E se não existe, está claro que certas situações na vida da gente não acontecem enquanto alguns palitos não são mexidos. Um ator, famoso, com família constituída, rico, porém solitário; uma jovem, linda, saudável, casada com uma pessoa que ela ama e que a ama também, porém, igualmente solitária. Ambos do mesmo país, no entanto tiveram que atravessar o mundo e se encontrarem na mesma situação para descubrirem a amizade um pelo outro.

Todos sabemos que uma mulher casada, politicamente correta (embora o filme não deixe transparecer a verdadeira essência da personagem, do que ela é ou não capaz de fazer), não se deita na cama de um estranho (por mais que ela não tenha segundas intenções) e, caso deite, não fica tão a vontade como se já o conhecesse a anos, sem se preocupar se ele vai agir ou não com segundas intenções. Todos sabemos que um homem, ao se deitar na cama com uma moça tão linda e encantadora, vai, no mínimo, ficar na expectativa de que ela tome uma iniciativa para uma maior aproximação. A verdade, é que um homem não fica tão a vontade com uma mulher  gata como a Scarlett Johansson,  na mesma cama que ele. Ambos calados! Há sempre, ou de uma parte ou de outra, um desconforto, afinal não há a intimidade.

Com relação a isso, vejo que acontece exatamente o contrário com os dois. Lembra do ditado de que não existe amizade entre homem e mulher? Pois é, aqui existe e causa inveja. Fiquei perplexo como há química entre eles. Como os dois se sentem tão à vontade um na companhia do outro. É obvio demais o carinho que ela criou por ele em tão pouco tempo. Basta ver como ela o olha. Ela se sente segura, protegida e nada solitária quando esta com ele. Ele, embora em alguns momentos você tenha a sensação de que carinhosamente a deseja (sei lá, talvez não), a maior parte do tempo, e isso é muito mais forte, que ele a olha como sua filha. Acho sinistro o carinho e respeito que um tem pelo outro e como um completa o outro diante da solidão em que os dois vivem, numa cidade onde eles não conhecem ninguém e as pessoas, sequer, falam suas línguas ( quanto a isto o filme deixa bem claro como ele se sente ao ficar mudando de canal e todos estes são dominados pela língua japonesa).

Certa vez, pensando, eu estava com uma amiga minha (costumávamos sair pra beber todos os dias) e comentei com ela como era engraçado o fato de nós dois sentirmos tão à vontade um com o outro. Chegamos ao ponto de sentarmos à mesa do bar, conversamos sobre como foi o dia de cada um (ou qualquer outra coisa) e uma hora depois ficarmos calado, cada um com seus pensamentos e observando as pessoas, sem sentirmos aquela obrigação de "e agora, o que vou falar?". Aquela sensação de "o que falo pra continuar a conversa?". Não, isso não acontececia! Logo voltávamos a conversar, cair na gargalhada e depois voltávamos a curtir cada um o seu mundo. Que máximo era isso! Não se tratava de falta de assunto, mas sim de não falar (não conversar) quando não se esta a fim de isso fazer. É meio como a estória do "pum". Dizem que peido quando se da na companhia de outra pessoa ou é pra batizar a amizade ou a prova de que uma amizade (uma verdadeira intimidade) ali existe. O direito ao silêncio quando se quer o silêncio, mesmo que na companhia de outra pessoa, sem a preocupação de manter uma conversa forçada só para que não fique entediante o momento, é, pra mim, uma das maiores provas de intimidade e amizade. E é assim que vejo acontecer em Encontros e Desencontros.

São inúmeras as cenas dos dois juntos com tão poucos diálogos. Algumas cenas sequer diálogo há entre eles. Perfeito. Eu já vivi isso. É ótimo pelo fato de você se sentir em casa. Há uma segurança nisso. A conversa é corporal. Você sabe que aquela pessoa está na mesma sintonia que você. Toda vez que vejo o filme (e cada vez que assisto gosto mais e descubro coisas novas), fico maravilhado como essa química entre os dois surgiu tão rápida e tão verdadeiramente.

Fora isso e outras coisas mais, o conjunto do filme, do cenário, daquela cidade de pessoas aparentemente diferentes, língua diferente e uma cultura extremamente diferente, bem como a simpatia dos personagens em harmonia com uma trilha sonora magnífica, é o que me transporta para uma dimensão dentro do filme. Tudo no filme deu certo demais pra mim. Aquela atmosfera, não consegui encontrar em filme algum e a trilha sonora é uma das grandes responsáveis por isto. A faixa Girls do Death In Vegas, Alone In Kyoto do Air, City Girl do Kevin Shields, Too Young do Phoenix e Just Like Honey do The Jesus And Mary Chain, entre outras faixas maravilhosas, contribuem pra tudo isso que tanto amo. Depois de tudo isso, há ainda a atuação absurdamente maravilhosa de Bill Murray (a melhor ou uma das melhores de sua vida) associada com a atuação encantadora de Scarlett Johansson. É através deles que nós, expectadores, sentimos toda a sensibilidade de Lost In Translation.  Acho que nunca vou conseguir expressar todo amor e carinho que tenho pelos personagens, atmosfera e trilha sonora. Valeu Sofia Coppola!. Quer saber, pensando agora, percebo que amo tanto o filme simplesmente porque me sinto em casa.

Só não sei a resposta pra pergunta que não quer calar: o que ele disse ao ouvido dela quando foi dar um abraço de despedida ao fim do filme, ao som de Just Like Honey e que ela rebate com um sorriso de "felicidade"?

                                                                                                                                Por Diego Felipe

                                                                                                                     Para  Rafaela Pimentel


Posted on 01/04/2007 1:20 PM Comments (3)
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